"It's better to feel pain, than nothing at all. The opposite of love's indifference."
Sexta-feira, 3 de Agosto de 2012
Capítulo VII

Capítulo VII - Unexpected

- Oh – ela disse, não sabendo bem interpretar o que Wade lhe tinha dito. Não sabia se aquilo era mais uma tentativa de ir para a cama com ela, mais uma vez, ou se ele falava a sério. Algo nos olhos dele lhe disse que ele apenas disse aquilo por ser verdade – obrigada.

O silêncio constrangedor que a seguir se instalou, foi salvo pela cana de Zoe. Algo estava a puxar a sua linha.

- Acho que apanhei alguma coisa! – Zoe gritou, eufórica.

- E estás à espera do quê? Puxa isso!

Ela fez o que ele lhe tinha dito, enquanto ouvia as suas instruções de como o fazer. Ela puxou e então um peixe pequeno apareceu preso no gancho da sua cana. Wade olhou para ela e começou-se a rir da pequena coisa que ela tinha apanhado.

- Ao menos apanhei alguma coisa – ela disse.

Ela colocou o peixe dentro do barco e ele começou a abanar-se descontroladamente. Zoe não sabia o que fazer e começou aos gritos quando o peixe lhe saltou para o colo. Ela abanava os braços e pôs-se de pé abanando-se toda para que o peixe lhe saísse do colo. Um movimento aqui, e outro ali e quando repararam estavam dentro de água.

O barco não tinha afundado, mas Wade, Zoe, o peixe e as garrafas de cerveja estavam agora debaixo de água. Zoe bateu com os pés na areia e foi até à superfície a tossir.

- Para quê isso por causa de um peixe? – Wade disse, a uns pequenos metros dela – não sabes lidar com um peixinho daqueles?

- Como é que eu iria lidar com um peixe, se eu nunca pesquei na minha vida? Tu é que devias ter lidado com ele!

- Pessoas da cidade! Se houvesse um holocausto nuclear, um dia, as pessoas do campo eram as únicas que iriam sobreviver.

- Como queiras. Podemos voltar para o barco, agora?

- Não, não podemos voltar para o barco! O barco vai afundar se nós nos metermos lá dentro.

Ela ia responder qualquer coisa, quando algo lhe roçou na perna. Ela gritou e percorreu a pequena distância até Wade.

- Alguma coisa tocou-me! – ela disse, olhando para a água.

- Eu vou! – ele disse, rodeando a sua cintura com os seus braços.

- Não, idiota, alguma coisa na água! Uma cobra… ou um jacaré! Era um jacaré! – ela abraçou-se a Wade, a olhar para a água.

- Primeiro: foi um peixe, provavelmente. Dois: se fosse um jacaré, ele não te ia comer, se estivesses a comportar-te como uma maníaca, como estás a fazer agora. Três: eu vou ter que te beijar agora mesmo.

- O quê? – Zoe não conseguiu pensar. Os lábios de Wade já se encontravam juntos com os dela. E aquela sensação, os lábios de Wade nos dela, eram já familiares e bem-vindos. Ela colocou as suas pernas à volta dos seus quadris. Ele parou o beijo.

- Doc – murmurou.

Ela ainda tentava alcançar os seus lábios e conseguiu. Mas depois pararam o beijo e olharam um para o outro. Ela saiu de ao pé dele.

- Tu disseste que não me irias seduzir – ela disse – estamos aqui há umas horas e tu já me beijaste!

- Eu não estava a planear que isto acontecesse – ele dizia, tentando permanecer sério, mas conseguia-se observar um sorriso por detrás de tal expressão forçada.

- A questão aqui é que eu vim passar aqui férias, não vim para aqui para me estar a afastar, consequentemente, de acontecimentos sexuais indesejados.

Ela não deixou Wade responder e começou a nadar até à costa. “Zoe, espera!”, Wade gritava a tentar que ela o viesse ajudar a levar o barco até terra. Ela não lhe deu resposta, mas virou-se novamente para o ajudar. Ela pegou o barco de um lado e ele do outro e juntos o levaram até à costa.

- Vem cá – ele disse, enquanto eles faziam um caminho lento até à costa. Ela foi até ele e ele pôs-lhe um braço no ombro e outro na dobra do joelho e meteu-a dentro do barco. Zoe estremeceu. O sol estava a pôr-se e, se antes já estava um pouco de frio, agora a temperatura tinha descido muito mais.

- Tu já sabes disso, mas tu pesas mesmo muito pouco – Wade disse, tentando quebrar o silêncio entre eles – tens mesmo que começar a comer mais, doc.

- Parece que não terei outra opção sem ser não comer, hoje – ela disse.

- Claro que vais – ele disse, sorrindo – eu tenho algumas coisas congeladas dentro de casa.

Na manhã seguinte, quando Zoe acordou, não encontrava Wade em lado nenhum. Ele era o género de rapaz madrugador, mas ela pensava que ele poderia estar ainda embrulhado nos lençóis e deitado no colchão confortável do outro quarto.

Ela levantou-se e foi até à cozinha, preparou um café e umas torradas para lhe levar ao quarto. Abriu a porta mas ele não estava lá. Não havia muitos mais sítios onde ela pudesse procurar por ele. Aquela casa só tinha uma casa de banho, dois quartos e uma sala de estar conjugada com uma cozinha. Ele não estava em lado nenhum. Então, ela sentou-se em cima do balcão da cozinha a beber o café a comer as torradas que acabara de preparar para ele. Wade entrou naquele momento dentro de casa.

- Bom dia, raio de sol – ele disse, com o seu típico sotaque de rapaz do campo. Ele estava sem camisola e encontrava-se apenas com umas calças de ganga. Ela reparou que ele estava molhado… ou suado, ela não conseguia perceber. Mas percebeu também que ele trazia uns peixes dentro de uma rede, ao seu ombro.

- Que nojo – ela disse, tapando o nariz – porque é que tens isso aí?

- Preciso de os preparar antes de os meter no congelador – ele disse – tu vais-me agradecer mais tarde.

Ela acenou com a cabeça, revirando os olhos. Acabou a sua torrada e então sacudiu as mãos, para a seguir apanhar as migalhas que estão em cima do balcão.

- Suponho que não há nada para fazer por aqui – ela disse, lavando o seu prato – por isso vou deitar-me na espreguiçadeira, se ela não tiver coberta de cobras e bichos assim, a apanhar um bocado de sol.

- A espreguiçadeira está sem nada, doc – ele disse, rindo-se, abanando a cabeça.

- Ainda bem – ela disse, despejou o resto do café no lava-loiça e foi para o seu quarto, trancando a porta, antes de se mudar.

Passadas umas horas, Zoe voltou da sua estadia na espreguiçadeira. Quando ela entrou em casa, Wade olhou para ela e riu-se.

- Pensei que sabias que usar protector solar faz bem… sendo tu uma médica e… - ela não o deixou terminar e meteu a mão à frente da sua cara, fazendo com que ele parasse de rir.

- Adormeci.

- Espera aqui – Wade saiu de casa, deixando a porta aberta, e voltou com um pouco de erva na mão. Puxou-lhe o cabelo e quando ia a pôr a erva nas suas costas, ela saiu de ao pé dele.

- Ei! Que é que estás a fazer?

- A meter-te aloé nas costas – ele disse, ficando na mesma posição que estava quando ela saiu de ao pé dele.

- Eu sei o que isso é – ela disse – não te metas todo sedutor comigo.

Ele riu-se e ela voltou-se a sentar à sua frente. Zoe sentiu as mãos frias de Wade nos seus ombros, e ao mesmo tempo sentia a erva nas suas costas. A respiração dela estava forte.

- Dói? – ele perguntou, enquanto lhe continuava a espalhar a aloé nas costas.

- Pica – ela disse, ainda respirando fortemente.

Passado uns minutos, ele bateu-lhe nos ombros.

- Já está – ele disse, lavando as mãos de seguida – agora vou preparar-te alguma coisa para comeres.

- Imagino o quão bem se devem sentir as tuas conquistas, quando as trazes aqui – ela disse, levantando-se e a bater com os dedos em cima do balcão.

- Na verdade, nunca trouxe aqui ninguém, antes – ele disse, enquanto punha um pouco de maionese e ketchup por cima da carne grelhada. Ela olhou para ele, muito calada, à medida

que ele preparava o resto da sua sandes. Ele concentrou-se a fazer a sandes e ela tentou não se mostrar tão admirada.

- Disseste que esta casa era do lado da tua mãe… - ela rompeu o silêncio – onde é que ela está?

- Ela morreu, há dez anos atrás – a voz de Wade pareceu quase desaparecer à medida que o disse.

- Oh, desculpa – Zoe disse. Ela odiava aquilo. O silêncio que agora percorria a sala. Um silêncio que lhe mostrava várias imagens. A mãe dele ter morrido tão cedo e, tentou imaginar uma versão mais nova de Wade a cuidar do seu pai bêbedo. Era um bocado triste, mas não poderia desmentir que Wade tinha-se tornado em alguém forte; mesmo que ela não o tivesse conhecido antes, ela sabia-o.

- Enfim, nós aprendemos a lidar com isso – ele disse, enquanto lhe punha a sandes à sua frente.

- Obrigada – ela disse, enquanto dava uma dentada na sandes – então, e o que vamos fazer logo?

- Logo vês, doc – Wade disse, sorrindo, e com um certo brilho nos seus olhos que ela não percebera.

  



publicado por agnes hope às 17:34
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